
Por motivos de ordem pessoal tenho de passar frequentemente pela Freguesia da Pena, em Lisboa. Não é hábito passear-me pelos bairros típicos, mas refiro-me à Pena como paradigma destes. Aquilo que é apresentado a turistas como um dos interesses da cidade é antes uma profunda incivilidade que venho conhecendo cada vez melhor desde há alguns anos para cá. Não é a pobreza material já de si expectável neste meio. Mas a falta de vontade de mudar, o abandono e a indiferença. Na Pena, um mórbido equilíbrio estabilizou-se tomando conta de tudo. Podemos ali assistir a um variado leque de degradações: toxicodependência, alcoolismo, velhas receptadoras que alugam quartos para coirões de 200kg se prostituirem. Muitos dos seus habitantes transparecem não pobreza mas sim desleixo completo. As ruas não fogem à regra com troços de alcatrão degradado, escarros, cantos mijados e cagadelas de cão e gato por todo o lado. Não, não me venham com a conversa de que é mesmo assim, de que é típico ou que estou deprimido. Há cerca de quatro anos quando comecei a passar pela Pena pensei que uma boa dose de assistência social resolveria a situação. Os programas elaborados pelas habituais equipas de profissionais das ciências humanas seriam suficientes. Entretanto apercebi-me que de facto estes já andavam por lá, atordoados pela quantidade de casos intratáveis. Outros há que encaram este dia-a-dia como uma forma de cultura à qual se "adaptam" para que a sua acção possa supostamente ser eficaz. Acabam por ir ao encontro da imundície não para a estudar e propôr soluções, mas para estabelecer estratégias inofensivas, amigas da mesma imundície que, pese toda a boa vontade, não resolvem nada e são apenas entretenimento psicologizante de circunstância. De que serve incutir auto-estima batendo palminhas a estes modos de vida? Será doloroso admitir que tais meios precisam de um chapadão civilizador, com mais acção e menos psicologia? Mal menor será pegar num conjunto de inutilidades e fazê-los aprender de forma compulsiva regras básicas de cidadania com trabalho comunitário em obras de recuperação dos bairros. Sei que parece stalinista mas, descontando as barbaridades, até Stalin se pode compreender no meio de uma Rússia desfeita em cacos entregue a bebedores de vodka, autêntico ou ideológico. A realidade não pára por causa de alucinogéneos, sejam estes químicos ou provenientes das "humanidades". É que tudo isto seria menos grave não estivéssemos a falar do centro de uma capital europeia, pejado deste deixa-andar analfabeto e muito orgulhoso de si próprio.
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