Sábado, 9 de Janeiro de 2010

Nem só Pyongyang tem direito a brincar


Algures esta semana e em apenas uma noite, 9 idosos morreram na solidão, em Lisboa, nas suas casas. É por coisas destas que se mede o quanto valem discursos sobre a modernização do país. De que vale andar a exibir tecnologia de ponta como uma conquista de primeira importância? Ou ter Lisboa diariamente atafulhada de automóveis que, segundo especialistas na matéria, são em número excessivo para uma cidade tão pequena? De que valem horas de stress urbano e de actividade nervosinha dentro de escritórios e superfícies comerciais, como se estivessemos em alguma Manhatan? Até já existe quem proponha uma semana de 60 ou 70 horas de trabalho para enfrentar a crise. Acaso não estamos na periferia sudoeste da europa como se fôssemos uma pequena ilha? As manhãs urbanas deste Portugal "moderno" são de um ridículo que daria para rir não fossem também uma tortura. Ninguém se apercebe que Lisboa é um caos urbano isolado dentro de um país visto como longínquo. Têm-se todos os tiques de uma grande urbe centro-europeia ou pelo menos tenta-se imitar. Até a simpatia que se considerava uma característica nacional foi substituida pela petulâcia irritante e pela vã agressividade de homens e mulheres que têm tanto de aprumado como de ordinário. Lisboa sonha que é moderna sem o ser de facto. É uma cidade brinquedo aproximando-se quase das efabulações norte-coreanas de prosperidade. Sei que este discurso é, segundo o intocável cânone em vigor, discurso velho. Mas qualquer um que tenha 2 dedos de testa e saiba pensar, não pode deixar de notar o absurdo que é a vida do Portugal "moderno", onde aquilo que de humanidade nos destacava foi sendo completamente sacrificado. Tudo para fingir um progresso e uma modernidade que nos têm trazido recompensa nenhuma. Só me lembro da batida frase de Raúl Solnado: "Façam o favor de ser felizes!".

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