
Parece que a questão do casamento homossexual não dá grande resultado. Consegue-se mais ou menos o pretendido durante uns dias mas não será mais que uns dias. Passada a questão, há-de voltar a dura evidência do estado da nação que é o que se deseja camuflar com tudo isto. Para não desperdiçar os trunfos todos de uma vez, a discussão sobre a adopção de crianças vai ficar para depois. As "tropas" que se indignam com estas causas nada mais fazem do que esticar o propósito de quem as lançou oportunamente. Todos fazem triste figura ao fim e ao cabo. Os partidos de esquerda mostram o seu oportunismo, os indignados quer queiram quer não fazem-lhes o favor, os homossexuais - pouquíssimos dentre eles aliás - festejam e dão confiança a quem muito convenientemente achou que agora se "preocupava" com eles. Basta ver este "novo" PCP que, mantendo-se ortodoxo, mudou de ideias de repente em relação à coisa. A questão propriamente dita é-me quase indiferente. Isto porque é totalmente superficial e porque não terá relevantes repercussões sociais práticas como diz a brigada do "cuidado com o sexo". É uma lei feita para uma minoria de interessados por sua vez já dentro de uma minoria. De qualquer modo acho que as associações LGBT não conquistam grande coisa com esta obstinação. Inteiramente necessário é que se defenda a dignidade de pessoas LGBT face a episódios de violência ou de injusta discriminação na vida pública, social, laboral etc. Mas nada se ganha em abrir uma guerra moralona para a todo o custo impôr especialidades burocráticas como o casamento civil, já que preferências sexuais, sobretudo as minoritárias, não são susceptíveis de se transferir ou causar empatia na generalidade das pessoas. Neste particular parece-me que as associações LGBT meteram a pata na poça e dividiram ainda mais a sociedade em partes incomunicáveis.
Quanto aos que muito se indignaram com a questão, convém ter em conta alguns pontos. Sou Católico, reconhecendo que a existência humana é já por si geradora de enormes cruzes, tanto interiores como exteriores. "O Homem não se salvará enquanto não se reconhecer como o ser mais desprezível da criação" diz-se num filme de Almodovar com o título mal traduzido para "Negros Hábitos". Nada existe de pior do que ser-se muito contente consigo próprio, falando-se a torto e a direito da privacidade alheia como se alguém fosse isento de pecado. Recebo newsletters de alguns grupos que se formaram a partir da Igreja e que se aplicaram, como lhes compete, na resposta às questões fracturantes. Tais grupos merecem-me todo o respeito, até porque constituem igualmente minorias de gente que tem a coragem de assumir posições claras independentemente da sua impopularidade. Por outro lado parece-me estranho que queiram depender de um referendo popular, com uma bem possivel maioria do "não" ao casamento gay (por "mete-nojo" e não por questões morais) no meio da qual muitos votariam "sim" ao aborto ou à eutanásia. Íntegro para um cristão seria prescindir do falso regozijo das maiorias, que são sempre lixadas já que tanto recebem Jesus em apoteose como pedem para O crucificar. Mas o mais extraordinário é que só o sexo tenha proporcionado tão ardorosa conjugação de sinergias entre estas pessoas que, curiosamente, são quase sempre fiéis leigos. Ora a vida é um todo e não uma parte. Injustiças e descuidos são vários e não se resumem - desgraçadamente para algumas soberbas castidades - tão simplificadamente ao entre-pernas. Há já quem queira chamar à colação o Cardeal Patriarca de Lisboa por alegadamente se ter reunido, entre outras personalidades, com o Primeiro Ministro. Valerá a pena imprimir especial azedume face à homossexualidade, quando as próprias indignações se partilham frequentemente em amena cavaqueira entre celibatários, cornos e marialvas? Grave mesmo é a incapacidade crónica de perdoar.
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