Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Gentilezas


Acabamos de assistir ao provável desfecho de um caso que contribui para a descredibilização das ciências psicológicas e psiquiátricas. Gosto da psicologia enquanto ramo da filosofia e não duvido das boas intenções dos seus estudiosos e profissionais. Mas enquanto ciência médica portadora de respostas terapêuticas válidas deixa muito a desejar. Não existe psiquiatra nem psicólogo que não possua atrás de si um juizo valorativo anterior ao tratamento de questões ligadas ao íntimo de uma pessoa. Quando a questão é sexo, então esta evidência aplica-se a dobrar.
A mente humana não parece feita de linearidades nem de partes soltas e pode mesmo considerar-se arrogância afirmar que sobre ela exista um conhecimento acabado. É impossível delinear exactamente a origem de gostos, preferências, conflitos internos e comportamentos. Na tentativa de o fazer, existem teses que não deixam de ser logicamente certas embora afirmem tudo e o seu contrário. Se isto se aplicar a uma terapêutica, então estes profissionais deviam figurar nas páginas amarelas dentro da mesma secção que astrólogos e cartomantes. Empacotar a alma de cada um dentro das rígidas tipologias presentes em calhamaços da especialidade pode ser mais danoso que terapêutico. Quem garante que não existe entre paciente e terapeuta uma boa margem de experiência não transferível? Que direito tem o terapeuta de aplicar - à moda das grandes ditaduras do século XX - um rumo a régua e esquadro que visa ora satisfazer a sua curiosidade, ora manter limpa a sua consciência, passando à revelia do sofrimento e da confiança de quem o procura?


Toda esta polémica gerada para esclarecer se a homossexualidade é ou não doença nada tem de cientifico. Não se pode catalogar um fenómeno destes como doença da mesma forma que tumores e eczemas. A pergunta que aqui se lança é, sem rodeios nem desvios "patológicos", se a homossexualidade é boa ou má. Tudo quanto se diz a este respeito estará forçosamente ligado ao domínio da moral, pelo que inventar certezas científicas de carácter universal é uma forma tirânica de despachar uma questão mais filosófica que outra coisa qualquer. Ainda mais disparatado é propôr-se a chamada terapia de reconversão. De origem americana - como não podia deixar de ser - esta terapia visa associar o comportamento dito patológico a estímulos repugnantes. Ou seja, o indivíduo é conduzido, de forma continuada, a experiências artificiais que o levam a associar constantemente a sua homossexualidade ao horror de electrochoques, banhos de água fria etc. Tudo isto é acompanhado de um programa onde o paciente é obrigado a frequentar actividades comummente ligadas à masculinidade. Ou melhor, a um paradigma de masculinidade, já que fica ridiculamente proibido de procurar coisas como teatro, ópera ou sinfonias. Agora pode-se perguntar, a bem da saúde mental, que têm de comum electrochoques e baldes de água fria com a sexualidade de um indivíduo?
Por isso não entendo como é que algumas eminências no domínio da ética possam defender uma prática deste género, dado que se fundamenta na criação artificial de relações entre fenómenos que nada têm a ver entre si e que resultou em diversos episódios registados desde o suicidio à perda de comportamento sexual, dupla identidade entre outras. Por outro lado, convinha que algumas pessoas especialmente zelosas pela tradição Católica da nossa cultura não dessem a mão à arrogância positivista das igrejas protestantes, tudo por obsessões de circunstância.
Temos o caso do Dr. Gentil Martins para quem a homossexualidade é, de facto, uma doença. Chega mesmo a afirmar que "se a homossexualidade evoluir acaba a humanidade", como se a dita não fosse minoritária e pressupondo (será lapso freudiano?) que toda a gente é propícia a sentir-se tentada. Mais adiante acrescenta: "Não se pode misturar as coisas, pelo que a sociedade tem de escolher a sua cultura. Temos de decidir o que é normal em Portugal, mas, na minha opinião, a pedofilia e a homossexualidade são perturbações psicológicas" e ainda "Sob ponto de vista psicológico e científico existem órgãos definidos que definem a complementaridade entre homem e mulher e isso é que faz evoluir a humanidade". Recorre aqui o Dr. Gentil Martins - na sua idade que já deu para aprender muita coisa - à velha técnica depreciativa, classificando homossexualidade e pedofilia em ex-aequo. De resto, nada garante que a complementaridade (reprodução?) se dê forçosamente em todas as circunstâncias pelo que tal afirmação, mais o "decidir o que é normal", estão, sem que isso comporte algum estatuto de menoridade, dentro do dominio da moral. Não se inventem, pois, doenças e tratamentos.

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